terça-feira, 15 de abril de 2014

Isto é um protesto


Não me venham falar de mercados, nem de cumprimento de empréstimos internacionais, não me venham falar de vidas acima das possibilidades, quando tantos vivem tão abaixo das suas necessidades!

às armas!
A revolta de novo nas ruas !

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CINE PRIVADO

Não sabes como te aguardo ansioso!

Estou aqui preso, dia após dia, contando o tempo por entre os dramas das novelas e os golos falhados dos clubes da primeira divisão. Preso! Preso é o termo. É o sentimento. E é real!

Bem sei que ainda existe mundo deslizante sob os meus pés - a custo, é certo, e agarrado a uma bengala que teima em não me obedecer - e que, apesar de tudo, ainda me sento no à mesa para comer, ao contrário do meu vizinho de quarto, que já perdeu a memória da cor das paredes do refeitório.

Quando regresso das refeições, com o rigor das badaladas das horas mortas e das novelas das cinco, sento-me na sua cama e, enquanto ele tenta deglutir os restos da fruta cozida que se eternizam na sua boca, descrevo-lhe com pormenores as conversas, os cheiros, os pratos que antes de almoço se perfilam  sobre a mesa como exército submisso às mãos dos funcionários e, depois dele, jazem como mártires destroçados numa qualquer guerra inglória, desalinhados, sujos, sangrando nódoas de comida pelos trajes dos comensais.

Só agora noto que me esqueci de lhe contar das novas toalhas da mesa. Mas ser-lhe-ia indiferente, porque não recorda como eram antes, quando ele ainda se mexia e lançava piropos compulsivamente quando se cruzava com uma mulher, como se exteriorizasse uma alegria que precisava recolher para si, para se lembrar que continuava vivo.

Deixo-o por instantes parado a olhar o tecto. Não sei se me ouve, não sei se gosta que lhe fale, não sei sequer se me percebe.

Depois há os outros.
No resto do dia sento-me na sala. Olho-os, falo-lhes, respiro.

Por vezes relato-lhes histórias de outros tempos.

Como a daquele dia da viagem que havia de ter sido a nossa primeira à capital.
Pormenorizadamente, descrevo-lhes a expectativa da mãe, as conversas inflamadas com as vizinhas que redobravam a afabilidade para não deixar transparecer um mal contida inveja. Conto-lhes como isso nos divertia, como a mãe mandou que nos fizessem uns fatinhos lindos, porque, afinal, uma visita a Lisboa é uma visita à capital, ao local mais importante do país, onde há ministros e grandes monumentos e ruas largas e a luz ilumina os caminhos noite adentro.

O pai pediu que lhe trocassem dois dias de férias na fábrica, e a muito custo anuíram, sempre de cara cerrada, depois de o fazerem prometer que redobraria esforços depois de regressado, perplexos pelo facto de alguém sem estudos querer passar a fronteira das estremas do seu mínimo torrão, dos seus nabos, das couves e dos recos.

Conto-lhes toda a minha vida, para não a esquecer.

Eles deixam-se embalar as minhas histórias que podiam ser as suas, recostados nos sofás com que se confundem e de onde se levantarão à hora de dormir.

Falo-lhes do riso feliz no carro, imaginado o Tejo, das cantigas que nos animaram a viagem até que me lembrei que precisava de urinar.

Pacientemente, o pai encostou o carro. Tu levantaste-te do meu colo para que eu pudesse sair e eu lá fui a correr enquanto abria o fecho, não fosse a natureza ser mais rápida do que eu.

Para me furtar aos olhares curiosos das manas, refugiei-me junto a umas sebes, na beira-rio, quieto, abandonado ao gozo de me ver aliviado daquela aflição. Foi então que, junto à margem, uma amora se insinuou irresistivelmente por entre as silvas, qual sereia obstinada perante Ulisses.

E o sonho de conhecer a capital findou-se no emaranhado das minhas carnes nuas e frias, embrulhadas no casaco da mãe, a tiritar de frio, com a frustração de um regresso intempestivo a casa e a dor de vos estragar o dia. As minhas roupas molhadas presas na janela, ondulando ao vento por fora do carro, como uma bandeira de rendição.

Mas são fotografias as que conto! Páginas de revista. Estáticas, inertes, já baças de tanto manuseio.
Já não contabilizo as vezes que as lembrei …

Mas quando chegas, estou de novo numa sala de cinema onde, tu e eu, produtores de um filme realizado há tanto tempo, ajeitamos a cor e a luz e o som e os cheiros a cada cena. Ocorre que cortemos algumas delas, sobretudo as dolorosas que não servem o modo como queremos fixar a nossa história. E é como se as fotografias, aqueles velhos recortes de revista, se animassem.

De repente, uma luz surge no retrato, ouvem-se sons, sentem-se cheiros… como o do rosmaninho que ladeava a estrada nessa manhã em que vos desfiz os sonhos de, com vaidade, poderem, com a vossa melhor letra, a mais bonita, muito carregada, escrever  «Nestas férias fui à capital» para iniciar com brilho a primeira frase da redacção que a senhora professora nos mandara fazer sobre o que fizemos nas férias.

Lembro-me da cor da amora, a brilhar para mim, jogando às escondidas com os ramos e obrigando-me a inclinar-me cada vez mais para a alcançar.

Consigo mesmo ouvir o som do meu grito. Fino. Menineiro. Estridente. Surpreso e curto adivinhando já o desfecho. O súbito embate com o espelho límpido onde se passeavam insectos e a frieza da água entrando-me nos ossos como um castigo prévio pelos vossos olhos tristes, decepcionados, silenciosos para não engrandecerem mais a reprovação do pai, já a pensar no trabalho suplementar que teria na fábrica, por um dia que não chegou a ser, e que estava perdido.

Conto-lhes, mas nenhum deles sabe como cheira a manhã na nossa terra, nem como chilreavam os pássaros nessa manhã, nem saberiam a minha voz naquele grito! E eu não posso descrever-lhes tudo, porque não compreenderiam como podíamos rir-nos do assobio do pai ao chegar a casa, nem que o beijo da mãe nos sarasse as feridas.

Mas contigo tudo é diferente! Tu não precisas de viver a história para a conheceres como se a tivesses vivido. Tu povoavas as  minhas histórias como actor principal e quando não participavas sabias ler-me o olhar quando nos víamos e entendias o que te contava como se fosse tua a vida. Porque tu conhecias o realizador e o actor e o editor e o produtor que eu era, e sabias que só podia ser assim qualquer que fosse o filme que te contasse.

Quando chegas entras nas memórias que ficam dormentes durante a semana, à espera do teu abraço que as desperte, para me resgatar do que vou perdendo, de mim, nos dias solitários à tua espera.



E é por isso, irmão, que vou ainda sou!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Desobliquação


Vinha de longe. Sussurrava monocordicamente, como se qualquer modulação de voz pudesse acordar memórias indesejadas.

Talvez rezasse.Gesticulava muito.Lentamente. Com firmeza de quem acredita nos prodígios.
Aprendera há muito as rezas que sibilava. Há muito. Há tanto tempo, que todos os momentos se detinham nas mãos dos mortos que lhe afagavam docemente os louros cabelos.

Ciclicamente parava a carreta que arrastava com dificuldade. Ficava quieta olhando o céu, adivinhando a chuva. fixando o sol. Medindo a distância entre a terra, tão sólida, tão chã, tão acolhedora, e o céu onde se diz repousarem as raízes. Que anacronismo, pensava, com todas estas letras e o sentimento de um fim que adivinhava prestes.

O peso atrasava-lhe o ímpeto. Arrastava-a. Tolhia-a.
Sobre a carreta repousava, num alinho militar, tudo quanto de material lhe pertencia para além da roupa que vestia e de um pequeno anel que a mantinha viva no dedo polegar.
Era magra. Provavelmente o anel já coubera no dedo a que pertencem os anéis, a assinalar, quem sabe, um noivado, o nascimento de um filho, uma viuvez antecipada.

O chão chegou e parou também. A mulher estendeu-lhe as asas magras e o cão aproximou-se. Por largos momentos, o cão deixou-se aquietar, aninhado naquelas conchas quentes e leves que o afagavam. 

A vida continuou como antes da chegada do cão, ou da mulher. Os mesmos madrugadores de olhos ensonados, no frenesi da pressa de chegar atempadamente a um emprego que a maioria detestava ou suportava como um Karma e para quem a mulher apenas não era invisível porque cheirava mal, provocando ao seu redor uma clareira no amontoado de gente.

Uma clareira, uma clareira num mar de gente, para permitir ver, com maior nitidez, como num palco, o centro do mundo: a mulher suja e velha da carreta e o cão.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O medo




Construamos planos fluindo livremente na dimensão onírica onde são possíveis todas as promessas e onde somos senhores do nosso espaço e do nosso tempo e das nossas emoções.

Num universo paralelo, o medo, atento aos nossos sonhos, disfarça-se de prudência, sibila-nos meigas cantigas para nos aquietarmos no seu colo mas, enquanto nos embala, fecha sem pedir licença a porta do que poderia ter sido a nossa vida. Não faz ruído e nesse mutismo, nessa invisibilidade, faz-nos crer ser essa uma decisão nossa.

Por isso, todo o cuidado é pouco perante os desafios, não vá esse conforto doce criar-nos raízes onde deviam nascer asas.

Lídia Ponti

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Morra o outono, morra, pim!

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O Outono é a estação do ano mais inverosímil.

Gente de manga curta, para quem ainda é Verão, cruza-se com gente encasacada até aos olhos, trajando botifarras até à cintura, reverberando contra o inverno, que ainda não é, mas parece.

Este é o mês em que a balança é rainha. Ou talvez não: depende! Há quem guarde a balança num sítio inatingível para evitar depressões, mas também conheço quem a coloque previdentemente  na entrada da cozinha (ó, com licença, cuidado para não tropeçar), para evitar tentações.

Mas por que é que tudo o que é fruto de Outono, engorda?

Ei! Não valem explicações científicas do género "é porque o corpo precisa de ganhar gorduras para aguentar o rigor do inverno, como em qualquer outro animal", porque quem ser magra quer tudo menos que lhe lembrem o seu lado animal a precisar de calorias.

Com licença, vou ali comer mais um dióspiro para aliviar a tensão e mais uma mão-cheiinha de castanhas com geropiga para aquecer a alma, e já volto!




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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os sapatos vermelhos




Usar saltos altos foi uma emancipação, longe dos olhares da mãe que os proibia por serem poucos ergonómicos - coisas de mãe, já esquecida dos olhares masculinos, ou quem sabe por isso.

Tinham um defeito, os saltos altos: davam-lhe dores de costas, faziam-lhe calos nos pés e tinham o dramático inconveniente  de se meterem por entre os interstícios da calçada portuguesa, partindo-se com um estalar de ossos pouco ginasticados, ficando de salto pendendo como um monco de perú.

Estes inconvenientes passaram milagrosamente quando descobriu um sapateiro alto, de tronco largo, mãos vigorosas e habilidosas, que devolviam aos sapatos o brilho de escaparate.

E se no início se limitava a levar os sapatos de salto partidos de véspera, a deixá-los para consertar e a ir buscá-los no dia seguinte, logo passou a ficar presa daquela voz e daqueles gestos que se articulavam com tal perfeição , e a desejar passar mais tempo com o sapateiro artista.

Por isso passou a forçar a quebra dos saltos a caminho do almoço - que maçada - e ela a ir consertá-los e a ficar cada vez mais tempo junto dos sapatos, ouvindo o sapateiro e vendo-o trabalhar. Os colegas estranhavam o som seco que ouviam por vezes, ao almoço, na casa-de-banho, mas nunca souberam que eram os saltos a gritar socorro, sacrificando-se a favor do amor.


No dia em que, finalmente, arranjou coragem para confessar o seu amor, levando consigo os sapatos vermelhos que lhe oferecera o primeiro marido para lhe dar coragem nas decisões difíceis da vida, foi chamada à direcção e em vez do aumento que tanto jeito lhe daria, foi dispensada, que é uma maneira ainda mais desumana de se ser despedida.

A jovem empreendeu o caminho a que os seus pés já se haviam habituado, antes de recolher a casa. Parou no parque defronte ao sapateiro. Sapato na mão olhando a pedra que sustenta o altar de Nossa Senhora dos Aflitos, que lhe faria mais falta, neste momento, do que a santa. Calçou-o de novo. Lentamente, resignadamente, com o extracto do banco na mão. Não tinha dinheiro para alimentar amores tão caros. A partir desse dia voltaram as dores e os calos, dores de navio que soçobra ao deixar para trás o cais.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

À espera do teu não regresso!



Foi há três meses. Nas mãos cantavam-te esperanças e projectos e sobrava-te o riso abrindo alas à aventura.

Foi há três meses que fiquei envolta no cheiro a mosto da saudade, com um semblante de quem resiste nas margens do mundo e toda a esperança guardada num frasco transparente para se lembrar, fechado para não se volatilizar. O sofrimento é necessário para que a lembrança perdure, como me dizia a tua mãe quando lhe telefonava para me consolar .


Bem sei que não é muito tempo. Sobretudo se se estiver ao sol bebericando o sumo fresco de groselha. Mas nem sei porque me lembro de sol ou de groselha quando a chuva se assenhoria dos tempos e a groselha está ainda no caule aguardando a colheita e a tua sombra se apressou a ocupar o teu espaço na cama, enlanguescendo-se despudoradamente, alongando a noite.

Antes, desconhecia que o vazio que pode esconder-se em cada casa,  à espera do momento para usurpar os afazeres dos dias, para se instalar. Agora sei!

A falta que senti do teu sorriso. O teu cheiro com olhos de erotismo, preso aos mais insuspeitados pedaços de existência. A solidão desgovernada, arrastando-me para programas de televisão que jamais quis ver.


Apoderei-me do teu espaço para preencher com recordações e presenças as sombras que restaram. E enquanto não voltavas.

Se os olhar desgastasse as coisas, há  muito não sorririas na fotografia do quarto.

Durmo desde então com o teu pijama enroscada no pensamento de que te tenho. Calcei as tuas pantufas, li os teus livros, mirei-me no teu espelho. Experimentei o chapéu que te deu a tua mãe quando saíste de casa, assente na cabeça como o pó do tempo. E como me fica bem,

Inebriei-me do teu perfume cobrindo-me a pele e cheirei-me vezes sem conta para te ter comigo. 

E neste ritual de gestos em que me encontro contigo através de mim, apaixonei-me por nós. Depois, por mim. Por mim com o teu cheiro, o teu pijama, os teus livros e até com os teus horrorosos chinelos.


Faltam dois dias para regressares.

Eu sei, faltam dois dias para regressares e nem saudades, nem anseios, nem desejo.
Não voltes! 
Sou demasiado ciumenta para me partilhar contigo.

Hoje nos jardins ...


Cândidas meninas,
que pensam com os saltos de agulha e passeiam  promessas nas minissaias e decotes ...

foto: libertarian planet

domingo, 11 de novembro de 2012

O PÓ DOS OUTROS




Madalena não sabia o que fazer com as mãos, desesperadas em busca de alguma coisa a que se agarrar. Sentia-se, nos seus gestos nervosos, como imaginava que deviam sentir-se as aranhas sob o efeito do insecticida, esgrimindo durante largos instantes as patas contra inimigos invisíveis, contorcendo-se até que se aquietavam definitivamente. Nunca tinha chegado a perceber porque ficava presa  à  luta pela vida de um ser exangue; talvez fosse o fascínio de quem não se acomoda, talvez a tranquilidade final que lhe parecia tão impossível neste momento.

A mão direita procurava ansiosamente onde se agarrar para preencher o vazio do cigarro, como uma aranha. Para ocupar a mão foi comprar um gelado.

Levou a mão à mala em busca do passe do metro e reparou que não o tinha. Talvez tivesse ficado sobre a mesa quando esvaziou desesperadamente a mala e as gavetas em busca de um cigarro esquecido. Ou talvez tivesse ficado no bolso do casaco que as frias manhãs aconselham, mas de que o entardecer morno prescinde, e que deixara pendurado no cabide da farmácia. Lamentou o dinheiro que ia gastar desnecessariamente, dirigiu-se à bilheteira e esperou a chegada do metro.

Quando entrou na carruagem procurou um assento livre.Sentou-se e com o abandono de quem chega à meta, fechou os olhos pousando, sobre a mala, a mão agarrando o cone de gelado derretendo-se, a querer espreguiçar-se para a saia de linho, indiferente à falta de tempo de Mariana para tratar da roupa e da falta de dinheiro para a lavandaria.
Um rapaz a quem a magreza salientava as maçãs de rosto, mal encarado, de barba por fazer, com uns óculos escuros que não permitiam adivinhar o contorno dos olhos, com dentes escurecidos pela falta de higiene, começou a falar em voz alta num incómodo monólogo. O seu hálito fez afastar a senhora idosa sentada ao seu lado, e a criança da frente levantou-se, assustada, procurando protecção no colo da mãe que a enxotou por já ser demasiado grande para colo, dando-lhe no entanto a mão, e a criança colou-se à mãe, cerrando com força os olhos, como se fechando-os desaparecesse o homem e a ameaça da sua voz.

- Ora bem, está-se aproximar a minha saída, ah pois é !– e levantou-se dirigindo-se para a porta, passando ao lado do banco de Mariana.

Enquanto se dirigia para a porta tirou um cigarro e colocou-o no canto da boca e continuou a falar com a mesma gravidade, indiferente ao cigarro, como se sempre ali tivesse estado e fizesse parte daquela boca, prolongamento dos lábios.

O barulho da prata, tão familiar, chamou a atenção de Mariana, que virou a cabeça na direcção do barulho, e os seus olho cruzaram-se com os do homem.

O homem olhou para ela e reconheceu-a. Voltou atrás.
- Ora então cá estás tu outra vez, hã! - Mariana baixou o olhar. 
- Hoje não pareces a pantera cor de rosa, como ontem, toda de rosinha.
A porta abriu-se, mas ele não saiu como tencionara. E continuou  a dirigir-se-lhe.

Ela olhou pela janela como se estivesse apreciar a paisagem, manteve-se assim alguns instantes até que a monotonia escura do túnel a cansou e, pegando no telefone, escreveu uma mensagem para o seu marido: “a passar a a Alameda», sabendo qeu o marido, imerso na azáfama da sua vida de negócios não poderia lê-la.

- És toda gira;
Os passageiros começavam a manifestar mal estar, desdobrando-se em sussurros e expressões de tédio, sem no entanto intervirem.
Uma rapariga morena colocou a mão na perna de Mariana, que estava sentada no mesmo banco. O gesto de intimidade sobressaltou-a.
Sem que pudesse recompor-se do espanto, a rapariga atirou-lhe, de modo a que fosse audível para o sedutor:
- A esta hora já os nossos maridos devem estar impacientes à nossa espera na saída do metro.
- Como?! - perguntou Mariana, perplexa. 
- Então não combinámos que nos viriam buscar ao metro para irmos juntos a casa do Francisco? - Só aí percebeu o gesto e a tábua de salvação que lhe lançava a jovem.
- Tens razão – colaborou - que maçada, ter de ir com esta saia suja – e deu uma gargalhada satisfeita por ter conseguido acompanhar a simulação.
O rapaz já não olhou. Uma voz feminina anunciou "Roma" e, momentos depois, o sinal sonoro confirmou a chegada. O cigarro apressou-se a sair levando consigo o rapaz e desapareceu por entre a turba.
- Obrigada! - disse Mariana - e não disse mais.
Mas a rapariga morena da frente disse: - Se o palerma continuasse, saía comigo na minha estação, onde o meu namorado me aguarda e havíamos de garantir que chegava a casa sem mais assédio.

E riram-se ambas como velhas amigas. 

- Até à próxima – despediu-se a miúda morena, antecipando a alegria de um abraço.
- Obrigada – repetiu de novo Mariana, deixando que a vontade de fumar a invadisse de novo.

Mariana chegou a casa. Arrumou a cama, deu um jeito ao quarto, fez o jantar. Mastigou pastilhas até que lhe doessem os maxilares. Telefonou ao marido para ouvir a sua voz,  mas do outro lado do telefone, apenas a constância do sinal de chamada.

Uns minutos depois, um telefonema desculpava-se da impossibilidade de atender devido a uma reunião,  que já estava a caminho de casa, que a queria linda à sua espera e que a amava.

Fernando chegou a casa, limpou no tapete da entrada os sapatos carregados do pó do dia, deu um enorme abraço a Mariana, perguntou-lhe pelos progressos na sua Odisseia anti-tabágica, disse-lhe como a admirava e perguntou-lhe como lhe correra o dia.

Mariana contou, então, o episódio do metro, de como um louco teimara em a expor dirigindo-se-lhe por tu como se a conhecesse e fazendo apreciações desagradáveis. E que chegara a ter medo. E contou da desconhecida que se lhe tinha dirigido e lhe tinha dito … Neste momento Fernando deixou de ouvir a mulher, petrificado. Tolhia-o a ironia do destino. e enquanto a abraçava, relembrou a história que já conhecia, por a ter ouvido uns momentos antes, num apartamento aconchegante, nas conversas tranquilas dos amantes depois de se entregarem.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A silenciosa sombra dos sonhadores [3]


III.
Mariana gostava muito do avô, da sua companhia. Sentia-se protegida quando deitava a cabeça no seu regaço e sentia aquela mão doce deslizando como uma pluma pelos seus louros cabelos, enquanto lhe repetia histórias de quando era menino como ela e lhe perguntava no fim, olhos olhando o vazio, lembras-te?, e ela que sim, que se lembrava dos tempos em que não tinha vivido, como tributo à vida infante do pai de sua mãe. Era um bom ouvinte, o avô. Sorria sempre quando ela lhe falava do senhor da estátua e das conversas que com ele travava logo de manhã quando o ranger do abrir da sua janela o acordava, e Mariana tinha a certeza de que ele não se importava que ela acreditasse nas fadas, ou em duendes, porque não lhe respondia, como os outros, com um sorrisinho complacente: “Ora, menina, ora! Fantasias de criança”!  
Pelo contrário, não gostava de D. Gregória. Sempre vestida de negro, de boca crispada, mão escondidas dentro de um abafo fosse de Verão ou Inverno e um olhar sombrio que não merecia o esbanjamento de qualquer adjectivo agradável. Mariana temia que a sua casa fosse decorada a trovões e povoada por seres mágicos e maléficos e amedrontava-a imaginar cenas terríveis que seguramente se passariam por detrás de algumas janelas que permaneciam fechadas meses a a fio. 
Embora frequentemente simulasse súbitas dores de barriga, cansaços que a obrigavam a ficar na cama, ou o chamamento do avô, a precisar de si, nunca a mãe a dispensava de ficar a seu lado a receber D. Gregória com um “Bom dia, como está a senhora?”, enquanto pegava na saia e flectia ligeiramente os joelhos, a perna direita colocada levemente em frente da esquerda, como num passo de ballet. Não se lembra de ter alguma vez ouvido a resposta ao seu cumprimento. Não porque não fosse dita, mas porque de imediato mergulhava naquele alheamento silencioso que os meninos bem-comportados devem fazer, ao qual acrescia um esforço para não mostrar desagrado com a gesto de D. Gregória esfregando-lhe a cabeça com a mão, numa tentativa de carícia que, de tão semanalmente idêntica, lhe parecia sempre a mesma, como um livro a que não fosse possível mudar a página.
A única excepção à regra à tão previsível vida da fidalga e que, por esse motivo, excitava a curiosidade da população, era a reunião de chá que tomava, às sextas-feiras, com as três amigas que restavam do grupo da meninice, aquelas a quem, segundo as mesmas, Deus concedera uma moratória para redimir os seus pecados, obrigando-as a conviver com os destemperos da modernidade. A curiosidade não estava no que faziam durante o encontro. O que faziam sabia-o a população muito bem, levado de boca a orelha, em sussuro, depois de contado em segredo - só a ti, em quem confio! - pelas empregadas-de-fora da casa. O que surpreendia era a alietoriedade com que se reuniam, ora na casa de uma, ora de outra, sem aparente critério, como se D. Gregória quisesse, deste modo, rir-se dos que pensavam saber da sua vida.
O resto destes dias passava-os em casa. Ninguém sabe a fazer o quê, nem isso interessa a esta história.
Embora devota e frequentando matinalmente a Igreja, Mariana ouvira-a um dia confessar à mãe, para espanto desta, que rezava prudentemente a todos os deuses conhecidos e desconhecidos, não fosse o Pai Santíssimo pertencer, afinal, a outro credo que não aquele em que fora educada. Este receio de haver mais do que um deus tinha-lhe ficado da leitura de um livro que mão ancestral escondera entre papéis velhos de seu pai. Um livro sobre religiões que tinha lido sofregamente para a levar a concluir que, afinal, poucas diferenças podiam existir entre quem pregava o mesmo. Para se redimir da heresia, confessava-se todos os sábados, prometendo arrepiar caminho e regressar ao rebanho de onde se tresmalhara e ao qual tentava regressar, não sem reservas.
(continua)

Lídia Ponti 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A silenciosa sombra dos sonhadores [2]

Pintura: Claude Verline
II. 
D. Gregória era uma senhora fidalga, de poucas palavras, rigorosa nos costumes e respeitadora dos preceitos sociais como se deles dependesse a ordem do mundo. Mais por respeito à memória de seu pai - um velho e autoritário General cuja memória continuava a pairar na aldeia como uma sombra - do que por convicção, cumpria escrupulosamente uma agenda pública, sem falhas, sem atrasos, sem desvios.
Por essa razão, embora recatada, todos sabiam o dia-a-dia da fidalga e os seus actos, ritualizados, serviam de relógio e calendário a toda a aldeia.
Despacha-te, rapaz, que se faz tarde para iniciares a jorna, não vês que já D. Gregória regressa da Igreja?, insistia D. Gertrudes com o preguiçoso filho, a quem nem a fome encorajava o cultivo das terras. - Neste momento estará D. Gregória a ler o seu missal sob o alpendre de lilases - imaginava enlevado D. Joaquim, a quem os oitenta anos não impediam a esperança de poder vir a merecer, um dia, um olhar doce daquela que amava há tantos anos. - Cruz, credo, valha-me Deus Nosso Senhor, se a D. Gregória vai de visita às Fonseca é dia de ir à estação buscar a carta do meu filho e já se não me alembrava! - lamentava-se uma mãe a quem o apelo da cidade levara o único varão.
De tão pontual, minutos antes de entrar na mercearia, já D. Raúl se colocava à porta para a receber, a cada quarta-feira. E se uma vez se atrasou parcos minutos, logo se gerou um burburinho de que talvez estivesse enferma,- padecendo das doenças da idade, coitada, que algum dia esses achaques da idade haviam de se lembrar dela - mas logo apareceu vigorosa no seu porte muito hirto, desfiando o rol das suas compras, que uma criada pressurosa colocava em cestos.
As segundas-feiras reservava-as para ajudar a ilustrar as meninas Fonseca, que ficaram órfãs de uma mãe ainda na flor da idade, de quem sabiam apenas ser bonita e amável e chamar-se Deolinda. Escolhera para tal tarefa as manhãs, por ser este o período em que, segundo as suas raras palavras, as cabecinhas estão mais aptas a acolher os ensinamentos. Trabalho vão, uma vez que o único conhecimento que interessava às jovens era a lista dos rapazes casadoiros, em quem pensavam enquanto debitavam de cor a tabuada, ou bordavam um entremeio de lençol. 
Tinha um dom especial para ensinar quase sem proferir palavras, a fidalga, o que motivou um convite das senhoras da Igreja para, às terças-feiras, pela tardinha, tornar prendadas as moças solteiras do povo a quem ensinava a cerzir tecidos, colocar botões e a tratar do marido e da casa. 
De todo o calendário de D. Gregória, o único a que Mariana, mergulhada na sua ocupação de menina de 7 anos, não era indiferente, eram as quintas-feiras, quando a recebia em sua casa, à qual a bondosa senhora se deslocava, por cortesia, para saber junto de D. Francisca da saúde do senhor seu pai, cujo discernimento Deus levara, há alguns anos, deixando o corpo a marcar uma presença doce, fazendo companhia às memórias do que fora.

(continua) 


Lídia Ponti

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

roberto juarroz



Há poucas mortes inteiras.
Os cemitérios estão cheios de fraudes.
As ruas estão cheias de fantasmas.

Há poucas mortes inteiras.
Mas o pássaro sabe em que ramo último poisa
e a árvore sabe onde termina o pássaro.

Há poucas mortes inteiras.
A morte é cada vez mais insegura.
A morte é uma experiência da vida.
E às vezes são precisas duas vidas
para poder completar uma morte.

Há poucas mortes inteiras.
Os sinos dobram sempre o mesmo.
Mas a realidade já não oferece garantias
e não basta viver para morrer.

                       ROBERTO JUARROZ - n. 1925, Argentina

sábado, 8 de setembro de 2012

Netos




Custa acreditar, olhando-me no reflexo do lago - há muito que bani os espelhos lá de casa - que já fui menina. Menina dessas que andam de cabelo preso balançando ao ritmo dos saltinhos bamboleantes de lacheira na mão a caminho da escola, menina de risinhos tímidos e cochicantes, ruborescendo com os olhares dóceis dos meninos.

Nesse tempo em que fui menina como os outros que da minha idade foram - e já se foram tantos -  eu habitava locais mágicos, cuja porta se abria com a voz delicada e lenta do meu avô e acreditava viver no mundo da magia.

Esse eram os dias dos milagres. E eu não sabia. 

Candidamente desconhecia a existência dos sonhos a impulsionar a vida. A vida eram os sonhos e sonhos era o nome da vida, um nome que não era preciso e por isso ninguém mo tinha ensinado. E eu não o sabia.

Eu vivia nas histórias do meu avô e nas recordações ténues de que me lembrava, ao acordar e que a minha cabeça vadia, livre e irreverente inventava durante a noite por conta própria, para se vingar da minha quietude contemplativa e obediência diurnas.  

Depois, aos poucos, nomearam-me as certezas que tinha do mundo: sonhos!
Todas as certezas se esvaneceram quando lhes deram um nome e lembro-me de pensar o que fazer com os cacos e de como abriria a porta, ou se ela se abriria de novo para mim.

Lembro-me. Foi no dia em que ficou vazia a cadeira do avô e a sua presença passou a assentar em todos os objectos em que tocara, e os nossos dedos passaram a demorar-se mais sobre eles.

Foi no dia em que no seu lugar à mesa não havia comprimidos coloridos com nomes bizarros que o avô inventava e de que se despedia, antes de os engolir, depois de lhes fazer recomendações quanto ao trajecto, ou os aconselhar quanto ao que dizer  aos que já lá estavam quando os encontrasse. Fazia-o porque nos divertia e pedia-nos conselhos sobre os conselhos que devia dar. E nós, por vezes, não concordávamos e o avô encontrava soluções em que mesmo o vencido não sentia ter ficado a perder.

Sonhos, Era então esse um nome de quimeras e não da vida. A meta, não o caminho. O infinito, não a porta aberta pela voz do meu avô. 

Cresci retrocedendo, aos poucos, ao tempo inicial, mas evidente. 

Sou de novo uma menina a saltitar por entre promessas de risos, quando abro a porta, agora, eu. 
- Schhhh! - Faz-se silêncio! Os olhos ganham brilho e as asas nascem-lhes no dorso -Vamos entrar  na terra dos sonhos, digo!

Dos sonhos! Abro-lhes a porta das histórias onde viajo com eles no tempo dos milagres. Aqui estou eu, por força da regeneração, adicta, de novo desta condição sonhante, lançando-me para a meta inatingível. Por isso, se eu morrer pelo caminho desta jornada, não lamentem, nem me estranhem.

Será, seguramente, de exaustão onírica.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Hum, hum; sim, sim; pois!


René Magritte


Devias dizer em frente ao espelho, todos os dias, que vais mudar, sei lá, ser mais corajoso, mais firme - e eu a perguntar-me porque tenho de regressar a casa a cada fim de dia,  e a demorar-me cada vez mais tempo para chegar, por causa do trabalho, sabes, malditos clientes que que arranjam sempre defeitos nos projectos, para me alargar o tempo numa qualquer esplanada de café, ou num solitário banco frente ao rio, ali imóvel, sem pressas, sem constrangimentos na sua serenidade húmida e apelativa, ou no carro, a olhar a luz que me chega da janela da sala e a pensar como seria bom vê-la fechada e ser eu a abri-la quando chegasse a casa ao fim do dia.

Ouço-te repetir que tenho de mudar, que tenho de fazer frente ao patrão que me mata de trabalho e que sou um frouxo e que se fosse outro já tinha sido aumentado e se, e se, e se. E repito o que sabes, que sou um velho aos 50 anos e já ninguém muda, que sou o mesmo de quando casámos, apenas mais cansado das tuas recriminações, dos azedumes.

Insistes que não, que mudam, que então não mudou o Manuel, que se tornou um homem tão simpático, vê tu, que até já deixou o semblante sombrio e se tornou um exemplo de solicitude? E eu a perguntar-te se queres que mude pelas mesmas razões, depois de tanto sofrimento e de trazer no bolso a incerteza do tempo em que lhe será permitido o sorriso.

Memórias de crianças a correrem pela praia e nós com eles sem medo do ridículo, filmes vividos sem pressa, porque nem o pó, nem os gritos do vizinho acompanhando a música, nem a louça acumulada na cozinha ultrapassavam a barreira do sofá.  E se é para deixares a cozinha assim mais vale que não ajudes, e eu a ajudar e a tentar ser o que tu queres para que o silêncio doce regresse a esta casa a que já não chamo lar, sem conseguir ser esse, nem ser eu.

Vê o exemplo que dás aos miúdos, a falar com a boca cheia, e os miúdos (que são miúdos apenas na tua incapacidade de os veres crescer e a quem com gosto trocarias ainda fraldas e irias buscar à escola se não fosse ridículo fazê-lo a quem está já no secundário, com a dependência de quem não se liberta da necessidade que os outros têm de si, para se sentir amada) a olhar-te com olhos grandes a suplicar-te que pares e tu a veres nesses olhos encorajamento e eu a sorrir-lhes agradecendo e calando, calando cada vez mais, calando-me, calando o que sou para passar a responder-te - hum, hum; sim, sim; pois!, a cada inflexão interrogativa da tua voz em longos monólogos de questões alheias que não me dizem nada.

Mas como é possível que não te lembres se te contei tudo com tanto pormenor, és sempre o mesmo, nunca prestas atenção ao que te digo - e os amigos a pensarem que tenho memória de filigrana para o que me interessa e a ouvirem-te com os mesmos ouvidos moucos, pensando no futebol; na política; em como está cada vez mais linda a filha do José que era tão feinha em pequena, coitada; no automóvel que está por lavar; na crise;  em como pagar as contas ao fim do mês; na mini-saia que pára  provocadoramente junto à  mesa; no empregado que rodopia; no trabalho do dia seguinte à espera sobre a secretária e sei lá o quê mais. E eles hum hum, sim, sim, pois!

Os meus braços a querem fechar-se em torno de ti, a quererem abraçar-te para te dizer quanto lamento que não te aninhes em mim como antigamente, silenciosamente, dolente e sequiosamente como se dependesse deste gesto a força do amanhã e tu a dizeres deixa-te disso, já não temos idade para essas coisas de adolescentes.

E eu a ausentar-se sem que sintas, e a acreditares que ainda estou ali, sentado naquele lugar da mesa, deitado do lado esquerdo da cama, sem te tocar, porque te faço calor, sentado a conduzir-te a cada manhã para o emprego.

Escrevo-te esta carta para te dizer que não contes comigo hoje para jantar, nem para dormir, nem para te desarrumar a cozinha ao preparar o jantar, nem para te aborrecer deixando desalinhado o bibelot tão lindo que tem de estar milimetricamente disposto junto do Sto António da mesa de cabeceira. 

Deixo-te, pendurado no cabide da entrada, um saco cheio de hum, hum, sim, sim, pois!, para o caso de sentires a minha falta. 

Agora vou! Dou-te razão. Nunca é tarde, afinal, para mudar.

Lídia Ponti

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Se um dia vieres, não digas!




Em cada encontro eu levava no peito a decisão de terminar aquele futuro em que não acreditava, mas de que não era capaz de abdicar. Tu dilatavas com ternura o tempo das promessas e e eu desistia, para me agarrar, de novo, a um devir incerto. 

- Gosto dos teus murmúrios, disse-te. Da música das palavras, mesmo que sem sentido - não sabia como perguntar-te ... - e há palavras lindas como partilha, ou .., 
- Pérgola, atalhaste, sorrindo como sorririas olhando a lua, ou o horizonte, ou o infinito, locais a que nunca quiseste pertencer.  

- Quando? perguntei-te!
- Não é ainda o tempo, retorquiste. Aguardemos o tempo das certezas.

E eu, com medo que a certeza viesse mas tu não, afundei-me no ninho do teu peito. 

Aguardei-te, então, sob a pérgola da esperança, como pediste. Vieste sempre só. Nem a certeza, nem o amor, nem a resposta! 

Ficavam sempre enganos, o pudor discreto da espera e o desalento. 

Na tua pérgola murcharam já as flores primaveris. Levou o vento as folhas neste Outono. Trouxe-me a chuva o cansaço de viver alcandorada em perplexidades e meias-palavras e em aparições fortuitas, à espera de uma decisão, de uma entrega, da clarificação de um «cheguei» ou «vou»! 

Sob a pérgola, apenas se mantém intacta a sombra dos nossos beijos, até que outros sombras, de outros teus beijos se lhes sobreponham.

Se vieres um dia para te explicar, não expliques. Deixou de ser urgente essa resposta.

Canto silenciosamente muitas palavras desde então: eflúvio, engano, larva, arbusto, seiva ... mas já não canto pérgola.

Por isso, não venhas, para não ter de dizer-te das palavras mais bonitas do que a tua. Como inefável! Foi essa que aprendi, olhando o orvalho sobre o chão no inverno de todas as mentiras, de um amor feito constante bizarria.

Lembrar como quem esquece é uma benção!  
Lídia Ponti



sábado, 1 de setembro de 2012

O amolador e as memórias no fio da faca


Chega-me da rua, às águas furtadas do meu prédio na cidade, Lisboa, cosmopolita, capital do mundo lusitano, o som de Pã de um amolador de facas.

Consigo traz recordações dos tempos em que, menina, brincava na rua com um bando de gente para quem o amanhã não existia e que largava todas as brincadeiras para acorrer ao encontro do mágico que  amolava facas e consertava chapéus de chuva, qual MacGyver e cuja bicicleta nos parecia tão extraordinária como o carro kit.

O som vai-se esvaindo e fica a pungente antecipação de um tempo, próximo, em que os amoladores não serão senão uma reminiscência, um postal perdido num qualquer escaparate de velharias, ou uma ilustração num livro de velhas profissões.

É na cidade, mas podia ser na minha aldeia. Se, como o poeta, eu tivesse aldeia!

imagem: Genevieve Naylor,
Vida quotidiana no Brasil 1940-1943
disponível em boemiaenostalgia.blogspot.br


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

lusco-fusco



Ali fiquei, entretida olhando o efeito do tempo sobre as coisas.

A borboleta vadiando entre mesas de esplanada como se fossem flores; o pombo debicando migalhas perdidas; os namorados,  balançando os risos num corpo que o abraço fundiu;  as meninas adolescentes, passeando nas mini-saias e decotes promessas que não pretendem cumprir e que o inverno há-de abafar.

A minha caneta, cumprindo-se sobre o papel; o minúsculo aparo tornando-se céu no reflexo da luz solar, num arco-íris, este apêndice de mim pelo qual escorrem letras; por instantes faz-se silêncio, nem  conversas animadas de turistas, nem cantos de miúdos rua abaixo, nem Amália ao longe, na carrinha que teima em alimentar o fado. A palavra inventando-se e eu.

No final, quando a premência das horas me acorda, peço licença à escrita, para que me abra a porta da realidade. Levanto-me com a lentidão dos que acordam aos poucos;  esvaiu-se o sol no lusco-fusco de todas as paixões, de todas as razões, de todos os medos.

Rasgo o papel. Guardo a caneta. Pergunto pela conta. Pago.
Rumo ao covil  onde me habito!


domingo, 26 de agosto de 2012

silêncios ...



«Lorsque le silence s 'est établi dans une maison, l'en faire sortir est difficile; plus une chose est importante, plus il semble qu'on veuille la taire. [...] tout silence n'est fait que de paroles qu'on n'a pas dites. »

Marguerite Yourcenar
Alexis, ou le Traité du vain combat

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Dietas e sopas da mãe



Devia ser proibido, a quem faz dieta, ir passar férias a casa da mãe!

É que a mãe cozinha bem. A mãe cozinha sempre melhor do que nós e cozinha melhor do que qualquer chef cuja maravilhosa paparoca tenhamos algum dia provado. Vemo-nos a mãos com muito mais trabalho do que em nossa casa, porque a família é grande e parece agigantar-se nas férias, quando todos se reunem em torno da mesa familiar. Mas a isto se resume a nossa adultez: ao trabalho de pôr e levantar a mesa, lavar louça e repô-la no descanso das prateleiras enquanto aguarda a hora de saltar de novo para cima da toalha alva que a sobrinhada se encarrega de sujar ao fim de dois minutos com alimentos que não vencem a imperícia dos mais novos, ou o experimentalismo dos mais velhos.

Quando pegamos no talher, para comer, regressamos à infância. Tudo nos sabe como quando éramos meninos e até a insuportável sopa infantil nos sabe ao mais divino manjar. Tudo seria de facto divino, não fosse a circunstância de a mãe regressar connosco à infância, invectivando-nos a comer, porque a nossa vida é muito cansativa, porque se não comermos bem não conseguiremos aguentá-la, porque estás magrinha - e nem a constatação de que ter-se sessenta quilos e pouco mais de metro e meio as dissuade de utilizar este argumento. Algo me diz que, embora crescendo, nós e elas, as mães continuam com uma cegueira selectiva que as impede de ver até as evidências.

Tomei uma medida radical: porque a balança não obedece ao desejo a que qualquer homem gostaria de ouvir: "prefiro que me mintas !", peguei nela com raiva, rodei o botão estabilizador de peso e baixei dez quilos à bitola. Peso agora cinquenta quilos! Maravilhoso engano! Fiquei feliz!

Porém, dura pouco a alegria e quando as calças, apertadas, me relembram a mentira e a realidade que fiz por não perceber, caio em desespero, menos pela mentira do que pela conivência de nelas ter consentido!

Nunca o espartilho da alface me soube tão bem !!!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A despedida de José de Alemparte, de Paulo Bandeira Faria


Um homem idoso, septuagenário, a quem foi diagnosticado Alzheimer, doença que apenas vem sobrecarregar o fardo de viver separado da mulher que sempre amou e que lhe foi tirada pelo amigo com quem pretende reconciliar-se antes do esquecimento definitivo e que se decidea  escrever a sua vida como exercício de combate à perda de memória - sua e de si nos outros;

Uma criança de oito anos a quem o avô Xosé oferece um computador a troco do cumprimento da promessa de escrever todos os dias e que, para cumprir a tarefa, vai descrevendo o seu dia-a-dia e a leitura da vida dos que com ele convivem, numa leitura peculiar de quem vê o mundo despojado de erros, mas os intui e, de certo modo, os compreende e compreende a fragilidade escondida dos adultos «Se alguma coisa sei ao final de 3000 dias feitos é qeu não podemos deixar os adultos sozinhos, senão perdem-se» ;

Uma mulher atormentada por um passado que assombra de segredos o seu casamento que não a satisfaz; são estes os narradores da história de um grupo cuja vida se conjuga muito para além do que pudesse prever-se, e da História da Espanha do franquismo, dos traumas que deixou inscritos nas almas dos que a viveram ou lhe sentiram os efeitos distantes, mas muito presentes.

São estes os narradores de um livro muito belo - povoado de pessoas vergadas à cobardia dos seus sentimentos ou à coragem dos seus actos, sendo, uma e outros, parcelas de um mesmo sentimento - que conjuga narrativas de uma tristeza profunda pelo que a guerra, o medo e a incapacidade de esquecer provocam, com momentos de uma ternura infinita; parágrafos que apetece reler, reler, reler...


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Como se domina uma multidão ...


Em 1947, ensinava-se assim na escola do Exército. Os comandantes sempre souberam como lidar com multidões e suspeito que as multidões, pormenor ou outro de diferenciação contingente da época, se pautam sempre pelas mesmas características:


«OS CARACTERES NORMAIS DAS  MULTIDÕES são:
Grande impulsividade;
Grande versatilidade de opiniões, acentuadamente de características femininas, principalmente as latinas [sic!];
Grande predisposição para a sugestibilidade e «credulidade»;
Exagêro e simplismo daqs multidões, Para as multidões não há que explicar,; há sim que   afirmar com violência, exagerar, afirmar, repetir e não demonstrar;
Autoritarismo e intolerância das multidões. Os homens tiranos são os mais respeitados pelas multidões;
O conservantismo, antagònicamente aos seus instintos revolucionários aparentes; as multidões são profundamente conservadoras;
Moralidade baixa, pouco respeito pelas convenções sociais exteriores. POr vezes, a moralidade é alta, no sentido do cumprimento de actos de beleza moral rara, superiores até aos do homem isolado;
- Alto poder de imaginação, visto  a multidão pensar por imagens; Napoleão, contando com a imaginação das multidões, disse um dia num Conselho de Estado: « Foi fazendo-me católico que acabei com a guerra de Vendêa, faendo-me mussulmano que acabei com a guerra e me estabeleci no Egito, fazendo-me ultramontano que conquistei os padres na Itália. Se governasse um povo judeu levantaria de novo o templo de Salomão» [...]

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Ciclo de vida da discórdia



«A discórdia almoça com a abundância,

 janta com a pobreza, 

ceia com a miséria, 

e dorme com a morte».


Benjamin Franklin

sábado, 4 de agosto de 2012

Nevermore ...


Morte! 
Uma das palavras menos comerciais, mais evitadas, mais sofridas e mais silenciosamente proferidas, como que para evitar que a senhora da gadanha se lembre de quem dela fala com tal discrição (como se uma alegoria pudesse convocar-se pela verbalização do seu nome).

Em surdina, em pranto, em espanto ou como constatação do que se sabia inevitável e inexorável, a morte representa o que de mais finito existe no ser humano, o confronto com a sua existência breve, a porta conhecida de um ignoto mundo que apenas cativa aventureiros temerários, ou descontentes da vida. O rio onde Hades espera o viajante, com barca sempre pronta, quantas vezes se revolta pretendendo engolir o marinheiro incauto.E quantas vezes o moribundo se faz de novo à vida, renascido por uma qualquer promessa de bonança.

Na arte, a morte é um tema recorrente, quer como personagem principal (O Sétimo Selo, de Bergman, ceifeira negociando a colheita pelo resultado de um jogo de xadrez), como fantasma pairando sobre a vida da personagem (D. Giovani, de Mozart, ensombrando a personagem como, dizem, o próprio pai de Mozart lhe ensombrava a vivência), ou como símbolo omnipresente como impulso de renascimento constante (de que é exemplo a obra de Frida Khalo). Morte, cenário para a narrativa do absurdo da existência humana  (O Estrangeiro, de Camus), ou vertida em versos invocativos de um desfecho salvífico que elimine o "mal de vivre", o sofrimento da existência, a vertigem desejada (Mário de Sá Carneiro, Florbela Espanca).


Porém, é em The Raven, de Edgar Allan Poe - publicado em 1845 merecendo imediato reconhecimento pelos leitores e pela crítica), que o dramatismo e o desalento da finitude se condensa numa só palavra, proferida por um corvo:  NEVERMORE!

O Corvo (tradução de Fernando Pessoa)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.


É só isto, e nada mais."Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais".E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É o vento, e nada mais."Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

Disse o corvo, "Nunca mais".Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome "Nunca mais".Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

Disse o corvo, "Nunca mais".A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

Era este "Nunca mais".Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele "Nunca mais".Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

Disse o corvo, "Nunca mais"."Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

Libertar-se-á... nunca mais!


O Corvo, Gustave Doré



Nota interessante 1 - O facto de a deusa grega escolhida por Poe para poleiro do corvo ser Pallas, deusa da sabedoria, das artes e da Justiça.

Nota interessante 2 - O facto de os vários tradutores portugueses terem preferido chamar-lhe Atena e não Pallas. O nome é, de resto, Pallas Atena.