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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os sapatos vermelhos




Usar saltos altos foi uma emancipação, longe dos olhares da mãe que os proibia por serem poucos ergonómicos - coisas de mãe, já esquecida dos olhares masculinos, ou quem sabe por isso.

Tinham um defeito, os saltos altos: davam-lhe dores de costas, faziam-lhe calos nos pés e tinham o dramático inconveniente  de se meterem por entre os interstícios da calçada portuguesa, partindo-se com um estalar de ossos pouco ginasticados, ficando de salto pendendo como um monco de perú.

Estes inconvenientes passaram milagrosamente quando descobriu um sapateiro alto, de tronco largo, mãos vigorosas e habilidosas, que devolviam aos sapatos o brilho de escaparate.

E se no início se limitava a levar os sapatos de salto partidos de véspera, a deixá-los para consertar e a ir buscá-los no dia seguinte, logo passou a ficar presa daquela voz e daqueles gestos que se articulavam com tal perfeição , e a desejar passar mais tempo com o sapateiro artista.

Por isso passou a forçar a quebra dos saltos a caminho do almoço - que maçada - e ela a ir consertá-los e a ficar cada vez mais tempo junto dos sapatos, ouvindo o sapateiro e vendo-o trabalhar. Os colegas estranhavam o som seco que ouviam por vezes, ao almoço, na casa-de-banho, mas nunca souberam que eram os saltos a gritar socorro, sacrificando-se a favor do amor.


No dia em que, finalmente, arranjou coragem para confessar o seu amor, levando consigo os sapatos vermelhos que lhe oferecera o primeiro marido para lhe dar coragem nas decisões difíceis da vida, foi chamada à direcção e em vez do aumento que tanto jeito lhe daria, foi dispensada, que é uma maneira ainda mais desumana de se ser despedida.

A jovem empreendeu o caminho a que os seus pés já se haviam habituado, antes de recolher a casa. Parou no parque defronte ao sapateiro. Sapato na mão olhando a pedra que sustenta o altar de Nossa Senhora dos Aflitos, que lhe faria mais falta, neste momento, do que a santa. Calçou-o de novo. Lentamente, resignadamente, com o extracto do banco na mão. Não tinha dinheiro para alimentar amores tão caros. A partir desse dia voltaram as dores e os calos, dores de navio que soçobra ao deixar para trás o cais.


domingo, 11 de novembro de 2012

O PÓ DOS OUTROS




Madalena não sabia o que fazer com as mãos, desesperadas em busca de alguma coisa a que se agarrar. Sentia-se, nos seus gestos nervosos, como imaginava que deviam sentir-se as aranhas sob o efeito do insecticida, esgrimindo durante largos instantes as patas contra inimigos invisíveis, contorcendo-se até que se aquietavam definitivamente. Nunca tinha chegado a perceber porque ficava presa  à  luta pela vida de um ser exangue; talvez fosse o fascínio de quem não se acomoda, talvez a tranquilidade final que lhe parecia tão impossível neste momento.

A mão direita procurava ansiosamente onde se agarrar para preencher o vazio do cigarro, como uma aranha. Para ocupar a mão foi comprar um gelado.

Levou a mão à mala em busca do passe do metro e reparou que não o tinha. Talvez tivesse ficado sobre a mesa quando esvaziou desesperadamente a mala e as gavetas em busca de um cigarro esquecido. Ou talvez tivesse ficado no bolso do casaco que as frias manhãs aconselham, mas de que o entardecer morno prescinde, e que deixara pendurado no cabide da farmácia. Lamentou o dinheiro que ia gastar desnecessariamente, dirigiu-se à bilheteira e esperou a chegada do metro.

Quando entrou na carruagem procurou um assento livre.Sentou-se e com o abandono de quem chega à meta, fechou os olhos pousando, sobre a mala, a mão agarrando o cone de gelado derretendo-se, a querer espreguiçar-se para a saia de linho, indiferente à falta de tempo de Mariana para tratar da roupa e da falta de dinheiro para a lavandaria.
Um rapaz a quem a magreza salientava as maçãs de rosto, mal encarado, de barba por fazer, com uns óculos escuros que não permitiam adivinhar o contorno dos olhos, com dentes escurecidos pela falta de higiene, começou a falar em voz alta num incómodo monólogo. O seu hálito fez afastar a senhora idosa sentada ao seu lado, e a criança da frente levantou-se, assustada, procurando protecção no colo da mãe que a enxotou por já ser demasiado grande para colo, dando-lhe no entanto a mão, e a criança colou-se à mãe, cerrando com força os olhos, como se fechando-os desaparecesse o homem e a ameaça da sua voz.

- Ora bem, está-se aproximar a minha saída, ah pois é !– e levantou-se dirigindo-se para a porta, passando ao lado do banco de Mariana.

Enquanto se dirigia para a porta tirou um cigarro e colocou-o no canto da boca e continuou a falar com a mesma gravidade, indiferente ao cigarro, como se sempre ali tivesse estado e fizesse parte daquela boca, prolongamento dos lábios.

O barulho da prata, tão familiar, chamou a atenção de Mariana, que virou a cabeça na direcção do barulho, e os seus olho cruzaram-se com os do homem.

O homem olhou para ela e reconheceu-a. Voltou atrás.
- Ora então cá estás tu outra vez, hã! - Mariana baixou o olhar. 
- Hoje não pareces a pantera cor de rosa, como ontem, toda de rosinha.
A porta abriu-se, mas ele não saiu como tencionara. E continuou  a dirigir-se-lhe.

Ela olhou pela janela como se estivesse apreciar a paisagem, manteve-se assim alguns instantes até que a monotonia escura do túnel a cansou e, pegando no telefone, escreveu uma mensagem para o seu marido: “a passar a a Alameda», sabendo qeu o marido, imerso na azáfama da sua vida de negócios não poderia lê-la.

- És toda gira;
Os passageiros começavam a manifestar mal estar, desdobrando-se em sussurros e expressões de tédio, sem no entanto intervirem.
Uma rapariga morena colocou a mão na perna de Mariana, que estava sentada no mesmo banco. O gesto de intimidade sobressaltou-a.
Sem que pudesse recompor-se do espanto, a rapariga atirou-lhe, de modo a que fosse audível para o sedutor:
- A esta hora já os nossos maridos devem estar impacientes à nossa espera na saída do metro.
- Como?! - perguntou Mariana, perplexa. 
- Então não combinámos que nos viriam buscar ao metro para irmos juntos a casa do Francisco? - Só aí percebeu o gesto e a tábua de salvação que lhe lançava a jovem.
- Tens razão – colaborou - que maçada, ter de ir com esta saia suja – e deu uma gargalhada satisfeita por ter conseguido acompanhar a simulação.
O rapaz já não olhou. Uma voz feminina anunciou "Roma" e, momentos depois, o sinal sonoro confirmou a chegada. O cigarro apressou-se a sair levando consigo o rapaz e desapareceu por entre a turba.
- Obrigada! - disse Mariana - e não disse mais.
Mas a rapariga morena da frente disse: - Se o palerma continuasse, saía comigo na minha estação, onde o meu namorado me aguarda e havíamos de garantir que chegava a casa sem mais assédio.

E riram-se ambas como velhas amigas. 

- Até à próxima – despediu-se a miúda morena, antecipando a alegria de um abraço.
- Obrigada – repetiu de novo Mariana, deixando que a vontade de fumar a invadisse de novo.

Mariana chegou a casa. Arrumou a cama, deu um jeito ao quarto, fez o jantar. Mastigou pastilhas até que lhe doessem os maxilares. Telefonou ao marido para ouvir a sua voz,  mas do outro lado do telefone, apenas a constância do sinal de chamada.

Uns minutos depois, um telefonema desculpava-se da impossibilidade de atender devido a uma reunião,  que já estava a caminho de casa, que a queria linda à sua espera e que a amava.

Fernando chegou a casa, limpou no tapete da entrada os sapatos carregados do pó do dia, deu um enorme abraço a Mariana, perguntou-lhe pelos progressos na sua Odisseia anti-tabágica, disse-lhe como a admirava e perguntou-lhe como lhe correra o dia.

Mariana contou, então, o episódio do metro, de como um louco teimara em a expor dirigindo-se-lhe por tu como se a conhecesse e fazendo apreciações desagradáveis. E que chegara a ter medo. E contou da desconhecida que se lhe tinha dirigido e lhe tinha dito … Neste momento Fernando deixou de ouvir a mulher, petrificado. Tolhia-o a ironia do destino. e enquanto a abraçava, relembrou a história que já conhecia, por a ter ouvido uns momentos antes, num apartamento aconchegante, nas conversas tranquilas dos amantes depois de se entregarem.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Hum, hum; sim, sim; pois!


René Magritte


Devias dizer em frente ao espelho, todos os dias, que vais mudar, sei lá, ser mais corajoso, mais firme - e eu a perguntar-me porque tenho de regressar a casa a cada fim de dia,  e a demorar-me cada vez mais tempo para chegar, por causa do trabalho, sabes, malditos clientes que que arranjam sempre defeitos nos projectos, para me alargar o tempo numa qualquer esplanada de café, ou num solitário banco frente ao rio, ali imóvel, sem pressas, sem constrangimentos na sua serenidade húmida e apelativa, ou no carro, a olhar a luz que me chega da janela da sala e a pensar como seria bom vê-la fechada e ser eu a abri-la quando chegasse a casa ao fim do dia.

Ouço-te repetir que tenho de mudar, que tenho de fazer frente ao patrão que me mata de trabalho e que sou um frouxo e que se fosse outro já tinha sido aumentado e se, e se, e se. E repito o que sabes, que sou um velho aos 50 anos e já ninguém muda, que sou o mesmo de quando casámos, apenas mais cansado das tuas recriminações, dos azedumes.

Insistes que não, que mudam, que então não mudou o Manuel, que se tornou um homem tão simpático, vê tu, que até já deixou o semblante sombrio e se tornou um exemplo de solicitude? E eu a perguntar-te se queres que mude pelas mesmas razões, depois de tanto sofrimento e de trazer no bolso a incerteza do tempo em que lhe será permitido o sorriso.

Memórias de crianças a correrem pela praia e nós com eles sem medo do ridículo, filmes vividos sem pressa, porque nem o pó, nem os gritos do vizinho acompanhando a música, nem a louça acumulada na cozinha ultrapassavam a barreira do sofá.  E se é para deixares a cozinha assim mais vale que não ajudes, e eu a ajudar e a tentar ser o que tu queres para que o silêncio doce regresse a esta casa a que já não chamo lar, sem conseguir ser esse, nem ser eu.

Vê o exemplo que dás aos miúdos, a falar com a boca cheia, e os miúdos (que são miúdos apenas na tua incapacidade de os veres crescer e a quem com gosto trocarias ainda fraldas e irias buscar à escola se não fosse ridículo fazê-lo a quem está já no secundário, com a dependência de quem não se liberta da necessidade que os outros têm de si, para se sentir amada) a olhar-te com olhos grandes a suplicar-te que pares e tu a veres nesses olhos encorajamento e eu a sorrir-lhes agradecendo e calando, calando cada vez mais, calando-me, calando o que sou para passar a responder-te - hum, hum; sim, sim; pois!, a cada inflexão interrogativa da tua voz em longos monólogos de questões alheias que não me dizem nada.

Mas como é possível que não te lembres se te contei tudo com tanto pormenor, és sempre o mesmo, nunca prestas atenção ao que te digo - e os amigos a pensarem que tenho memória de filigrana para o que me interessa e a ouvirem-te com os mesmos ouvidos moucos, pensando no futebol; na política; em como está cada vez mais linda a filha do José que era tão feinha em pequena, coitada; no automóvel que está por lavar; na crise;  em como pagar as contas ao fim do mês; na mini-saia que pára  provocadoramente junto à  mesa; no empregado que rodopia; no trabalho do dia seguinte à espera sobre a secretária e sei lá o quê mais. E eles hum hum, sim, sim, pois!

Os meus braços a querem fechar-se em torno de ti, a quererem abraçar-te para te dizer quanto lamento que não te aninhes em mim como antigamente, silenciosamente, dolente e sequiosamente como se dependesse deste gesto a força do amanhã e tu a dizeres deixa-te disso, já não temos idade para essas coisas de adolescentes.

E eu a ausentar-se sem que sintas, e a acreditares que ainda estou ali, sentado naquele lugar da mesa, deitado do lado esquerdo da cama, sem te tocar, porque te faço calor, sentado a conduzir-te a cada manhã para o emprego.

Escrevo-te esta carta para te dizer que não contes comigo hoje para jantar, nem para dormir, nem para te desarrumar a cozinha ao preparar o jantar, nem para te aborrecer deixando desalinhado o bibelot tão lindo que tem de estar milimetricamente disposto junto do Sto António da mesa de cabeceira. 

Deixo-te, pendurado no cabide da entrada, um saco cheio de hum, hum, sim, sim, pois!, para o caso de sentires a minha falta. 

Agora vou! Dou-te razão. Nunca é tarde, afinal, para mudar.

Lídia Ponti

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Se um dia vieres, não digas!




Em cada encontro eu levava no peito a decisão de terminar aquele futuro em que não acreditava, mas de que não era capaz de abdicar. Tu dilatavas com ternura o tempo das promessas e e eu desistia, para me agarrar, de novo, a um devir incerto. 

- Gosto dos teus murmúrios, disse-te. Da música das palavras, mesmo que sem sentido - não sabia como perguntar-te ... - e há palavras lindas como partilha, ou .., 
- Pérgola, atalhaste, sorrindo como sorririas olhando a lua, ou o horizonte, ou o infinito, locais a que nunca quiseste pertencer.  

- Quando? perguntei-te!
- Não é ainda o tempo, retorquiste. Aguardemos o tempo das certezas.

E eu, com medo que a certeza viesse mas tu não, afundei-me no ninho do teu peito. 

Aguardei-te, então, sob a pérgola da esperança, como pediste. Vieste sempre só. Nem a certeza, nem o amor, nem a resposta! 

Ficavam sempre enganos, o pudor discreto da espera e o desalento. 

Na tua pérgola murcharam já as flores primaveris. Levou o vento as folhas neste Outono. Trouxe-me a chuva o cansaço de viver alcandorada em perplexidades e meias-palavras e em aparições fortuitas, à espera de uma decisão, de uma entrega, da clarificação de um «cheguei» ou «vou»! 

Sob a pérgola, apenas se mantém intacta a sombra dos nossos beijos, até que outros sombras, de outros teus beijos se lhes sobreponham.

Se vieres um dia para te explicar, não expliques. Deixou de ser urgente essa resposta.

Canto silenciosamente muitas palavras desde então: eflúvio, engano, larva, arbusto, seiva ... mas já não canto pérgola.

Por isso, não venhas, para não ter de dizer-te das palavras mais bonitas do que a tua. Como inefável! Foi essa que aprendi, olhando o orvalho sobre o chão no inverno de todas as mentiras, de um amor feito constante bizarria.

Lembrar como quem esquece é uma benção!  
Lídia Ponti



domingo, 15 de julho de 2012

testamento vital



"Trinta anos em que julguei conhecê-lo, para me dar agora conta de quanto estava errada! De como é frágil, afinal, a fortaleza quando a água serena, mas persistente, lhe vai erodindo os alicerces. Como explicar este pedido que me faz, de mãos cruzadas sobre o peito, eu a a evitar o toque e o seu olhar!

Quando a morte nos sussurra com malícia o código com que abriremos a porta do inferno, diz-se, mostra-nos o balanço do que foi a nossa vida para, perversamente, nos desesperançar  da salvação divina. Porém, lucidamente quantas vezes insuspeitadamente - apressa-se o moribundo a  pedir desculpas aos que ficam, na tentativa de salvar, neles, a memória do que foi. Mas tu não pedirás desculpas!
E como terias desculpas a pedir se fosses capaz, por uma vez que fosse, de te vestires da humildade que sempre desprezaste e que seria tão útil neste momento" - não lhe falou e ajeitou-lhe a máscara que o mantinha vivo, como o faria antes, quando ele não dependia dela e ela lhe ajeitaria a máscara porque sim, porque era assim, tinha de ser assim.
"Talvez pense que carinhosamente o retratarei com doçura, para lhe aligeirar o caminho, mas se assim for, está enganado!" – pensou, antecipando o prazer da perfídia da verdade - "sempre levei muito a sério os pedidos que me fazem, para mais de um moribundo, e pretendo cumprir a tua última vontade com o mesmo rigor que me acusavas de usar nas tarefas «comezinhas», «pequeninas, de ser pequenino como tu», repetias-me, «a desmerecer tanto tempo e tanta minudência»; «incapaz em coisas grandes",  lamentavas, “que pena que resumas a tua vida ao ocupar o espaço do teu corpo”, ironizavas! E eu ouvia-te, mantendo obstinadamente o meu labor de formiguinha paciente mesmo nas coisas mais banais, para que o pensamento se agarrasse com força às tais pequeninas coisas e não fosse tentado a revelar-se no olhar, nas palavras, nos gestos, não denunciasse os sentimentos que tentava adormecer. 

Sei hoje, no entanto, que o fazia sobretudo para te aborrecer; porque poucos aborrecimentos podia dar-te sem represálias (quanto tempo perdido…) e a minha indiferença (quanta simulação...) aborrecia-te, embora nunca o confessasses!

Será uma espécie de irónica vingança poder dizer-te, a teu pedido, o que penso a teu respeito. Dizer, portanto, sem remorso, o que estava destinado a guardar para mim. 
Indago-me genuinamente sobre o porquê! Pensarás que serei incapaz da crueza da verdade, ou não a temes?  Acreditarás no poder redentor das palavras que te serviriam de preparação para o inferno? Talvez suponhas que usarei de piedade!
Piedade! 
Um sentimento de que jamais fizeste uso em vida – noto-te surpreso, como se me adivinhasses os pensamentos! Sim, em vida, porque não é vida o que agora se vislumbra nos teus olhos. Piedade, «o sentimento piegas, adormecente, incapacitante, de gentinha sem garra nem ideias, nem ousadia» … as tuas palavras fazem eco na minha memória!"
Antes de iniciar o retrato parou um pouco, para o aconhegar. Puxou-lhe o cobertor até ao pescoço; ajeitou-lhe a almofada para que estivesse confortável quando as suas palavras de mulher contida se transformassem no espelho da sua existência -" por uma vez na vida, que alguém ouse dizer-lhe o que sente!" E soube nesse momento que, dos 30 anos de casamento, seria a vez em que mais palavras diria sem um olhar censor, uma palavra amarga cortando-lhe a vontade de se pronunciar.

- "Mas porquê agora?" - questionou!
- "Porque quero saber como me vês!, disse entre duas penosas respirações! Se sabes o que fui para ti, porque o fui, que o fui por ti!" - notou-lhe ansiedade nas palavras, suportada pelo  "fui" repetido a adivinhar o fim.

Estranhou a quietude, o ar de quem se abandona ao veredicto do juiz como se o desejasse por merecido, ou do crente que ouve, do padre, o rol de padres-nossos e avé-marias que servirão de apaziguamento à ira divina.
E preparou-se para o retratar, com um misto de coragem enrigecida pelo ódio, e de receio, não fosse o opressor ressurgir de novo, daquele corpo magro, inerte, em redor do qual quase podiam vislumbrar-se as mãos da Moiras na procura ansiosa do fio da vida para o cortarem de um só golpe e o conduzirem a Hades.
Neste momento, antecipando a insuportabilidade da descrição que pedira mas não teria coragem de ouvir, agarrou o peito, como se pretendesse evitar que, no momento derradeiro, um sinal de humanidade contradissesse toda a sua vida; deixou escapar um esgar irónico de quem é surpreendido perante uma arma cujo tiro sabe ser incontrolável e deixou-se ir, na viagem tenebrosa em que a fizera viver durante tantos anos.
E só então ela pode abrir a mala onde guardava as humilhações, as libertou e, descalça, seguiu o seu caminho, sentindo sob os pés o calor aconchegante do sol nos trilhos novos.

sábado, 14 de julho de 2012

Flambé de truta com geleia de rosas brancas


Matei hoje pela segunda vez e não me arrependo! Não é que eu não tenha muito respeito à vida, mas há pessoas que não merecem viver, porque incomodam quem pode melhorar o mundo.

Talvez fique presa muitos anos. Ou talvez não! De qualquer modo, não me importará sabê-lo, desde que me dêem trabalho na cozinha o que, pensando bem, será muito improvável!

Não me lembro exactamente como se passaram os factos, nem a razão porque eu, que abomino a alvorada, me determinei a levantar-me cedo para dirigir-me a sua casa,  tocar à campainha a pretexto de uma qualquer conversa. Quando me abriu a porta e viu o brilho dos meus olhos e, na minha mão, brilhando mais que eles, uma faca de trinchar carne, prostrou-se de joelhos a suplicar-me que o poupasse e prometeu-me coisas que jamais me satisfariam.

Creio que algum sentimento de desconforto terá ficado oculto desde a ceia do dia anterior, e se manifestou contra a minha vontade, num momento de alguma sonolência dos sentidos.

O meu advogado não se conteve e sorriu quando lhe contei das minhas razões; o Ministério Público não precisou de grande investigação para obter provas de que fora eu a autora do homicídio. No julgamento, pediu uma condenação vigorosa para quem - segundo as suas palavras - " tinha patenteado um tão absoluto afastamento dos sentimentos mínimos de piedade e um desprezo tão acentuado pelo valor da vida humana". Desvalorizou a confissão, porque me tinha recusado a contar tudo; mas eu tinha contado tudo! Enfim, contei tudo o que merecia ser contado.
De seguida sentou-se, afirmando-se convicto de que seria feita justiça; embora, em bom rigor, nunca especificasse qual a decisão justa no meu caso. 

Houve um momento em que suspeitei ter merecido a solidariedade e simpatia de um velho juiz-asa que me olhava, com aparente ternura; mas mal esta sensação começava a reconfortar-me, já o juiz meneava a cabeça e atirava para o ar com desprezo: «por causa de cozinhados, tch!» .

Apeteceu-me gritar-lhe que não foram os cozinhados, mas a incapacidade de um boçal em apreciá-los. Que o meu erro nada tinha a ver com tempos de cozedura, com grau de xaropes ou consistência de molhos, mas com o facto de, após tantos anos de solidão, o meu coração ter perdido a sagacidade e se ter deixado enlevar por um Adónis impreparado para iguarias, harmoniosas, requintadas - delícias terrenas que haviam de ficar na história da restauração de Lisboa, ao lado dos restaurantes de nomes que apenas homens endinheirados pronunciavam com naturalidade. Mas não me pareceu necessário enfatizar uma evidência! 

Que percebem os juízes de boa comida, se nunca provaram a minha! Eles, que frequentam sempre o mesmo restaurante com a rigidez monástica de uma andorinha. 

Certa vez, um grupo deles entrou-me pelo restaurante dentro. Andavam à procura de outro poiso - disseram-me ; se apreciassem a minha cuisine, fariam do meu sítio o seu local de tertúlias. Eu não me importava que aquele fosse o seu novo local de tertúlias, desde que apreciassem o resultado de longas noites de experiências numa cozinha tão asséptica e tão milimetricamente disposta que mais facilmente pareceria um laboratório, que o reino de Pantagruel. 

Com a carta na frente, ficaram largos minutos trocando opiniões e fazendo ares, ora de espanto, ora de questionamento, ora de surpresa. Dirigi-me ao grupo julgando-os indecisos sobre a escolha, evidentemente difícil, entre o pato au foie-gras com molho de whiskie e o peixe-galo com arroz de algas verdes. Para minha surpresa, a indecisão prendia-se com a escolha do tema da discussão para o almoço!

Irritei-me perante tanta indiferença, tirei-lhes violentamente a carta e acrescentei à mão, no cimo da lista dos pratos do dia: «tertúlia: 50 euros». 

Perceberam. Levantaram-se. Foram-se embora proferindo latinices que seriam seguramente impropérios.

Que azar o meu, que um destes comensais fizesse parte do tribunal que me julgou! Se ao menos tivessem provado o pato, ou o peixe-galo, talvez hoje eu não estivesse presa.  

A noite, forrada de silêncio e vestida do enevoado pardacento das horas, é o período mais propício ao trabalho criativo. Quase sem esforço, desfila uma passerelle de sofisticados sabores, requintados odores. Depois, basta-me procurar soluções gastronómicas que lhes dêem consistência e textura. 

Também assim foi naquele tempo de espera, entre o encerramento da audiência de julgamento e o momento do veredicto final. Nos primeiros dias, porque não queria pensar; nos seguintes, para matar a ociosidade; depois, por necessidade de artista, incapaz de contrariar a torrente de ideias geniais, aptas a satisfazer as mais exigentes papilas gustativas!

Dir-se-ia que a espera me aguçara a sensibilidade.
A ocasião exigia minúcia e recato, não fosse a minha colega de cela roubar-me as receitas com que pretendia surpreender os muitos clientes que haviam de estar à espera da minha libertação para voltar a comer bem.
Era uma questão de dias. 

Afinal, como poderiam manter-me presa sabendo que a culpa não fora minha, mas do triturador sem gosto que se me atravessou na vida, que me pedia ostras cozidas e acreditava que as trufas nasciam em árvores!

Começava até a agradecer estar presa. 
A tranquilidade fria da prisão potenciava a efervescência dos sentidos e o requinte da imaginação. Era como um retiro, apenas tendo a desfavor a indefinição do seu fim, mas a enorme vantagem da gratuitidade e a noite, longa, à minha disposição.

Porém, este bem-estar começou a desfigurar-se quando substituíram a surda-muda que compartilhava a cela comigo, por uma mulher sem maneiras nem pudor, que levantava a saia para ajeitar a blusa com puxões secos e desconcertantes, deixando visível a coxa grossa de quem puxa mais vezes o arado que o cavalo, e cujo pesado corpo não se aquietava, provocando com o embate das suas carnes contra o catre, um restolhar outonal de folhas. 

Estar só nunca me assustou.
O único receio foi apenas o de que a solidão, cansada de si mesma, se tornasse meu títere, impondo-me o convívio com as minhas obsessões e os meus demónios, aproveitando-se das minhas  fragilidades; que me fizesse figurante de histórias criadas pelos medos, compelindo-me a participar nelas. Nesses momentos duvidava de tudo. Acreditava momentaneamente numa coisa e no seu contrário. Tal como me aconteceu numa daquelas noites menos inspiradas, nesse espaço de algibeira com dois corpos colocados a par, como fatias de pão à espera do recheio. E questionei tudo: os porquês do meu acto, as condições em que o executei, as consequências. Tudo!
Bom, tudo não! Nunca questionei a minha genialidade. 

Ingrato! Sensaborão! Rural! Ignorante sem paladar...! 

Por minha vontade ficaria horas a adjectivar a sua insignificância ... e enquanto o denegria, dei-me conta de que não sentia pena. Nem remorso. Que poderia dormir sossegada, planeando novas delícias para quando fosse liberta – se ao menos alguém me trouxesse papel e lápis! 

O único impedimento à sublimação do prazer era o ressonar monocórdico, constante e aflautado da minha companheira de cela. Se quer ressonar, pelo menos que o faça com convicção, sempre desprezei ratos querendo parecer-se com touros. Quem foi condenada por matar o vizinho que lhe mudou os marcos, podia ostentar um rugido nocturno que fizesse jus ao feito! 

A repetição tornava aquele som cada vez mais incaracterístico, mas cada vez mais próximo, cada vez mais o mesmo, interferindo nas doses do borrego assado com molho de frutos silvestres acompanhado de batatinhas novas, a impedi-las de alourar no forno da minha imaginação. Tentei controlar-me, mas a persitsência começava a enervar-me mais do que auxiliares de cozinha apanhados a usar, nos cozinhados, o azeite fino de aspergir saladas.

Sossegou durante uns minutos e redobrei no entusiasmo da criação!  

Preparava um cozido de pescada com papas de abóbora polvilhada de canela e gengibre moídos, quando recomeçou. Aquela repetição sonora de mau-dormir, a dificultar-me a concentração. O cheiro fresco e doce da canela deslizando acetinadamente pelo fio da faca muito afiada, a confundir-se com o cheiro de madeira a desfazer-se por causa daquela motosserra de bateria inesgotável – a aurora quase a anunciar-se e ela ali, a abrir e fechar a boca como peixe debatendo-se no areal da Costa Verde ansiando por soltar-se das redes de arrastão. 

Cala-te!, insisti três vezes. 

E das três vezes o eco trouxe-me vozes de outras celas impondo-me silêncio. E a roliça mantinha-se a gemer, ignorando os estragos. 

Quando a meio da decoração de um bolo de baptizado a camponesa atarracada e engordada a pão de milho e azeitonas estremeceu, outra vez, no seu eco das profundezas, vi-me de repente perto dela, lancei-lhe as mãos ao pescoço e fiz tanta força como só me lembrava de fazer para amassar a bola de carnes de Trás-os-Montes antes de a por a levedar. 

De princípio ainda se ouvia um silvo a debater-se para se libertar. Depois esse ténue sinal foi enfraquecendo cada vez mais. Até que por fim pude, em sossego, colocar por sobre o glacé mais alvo que alguma vez consegui, uma pequenina estátua onde dormitava, risonho na sua inocência, um rosado recém-nascido, tranquilo por poder descansar numa cama feita de um bolo tão suave que ninguém teria qualidade suficiente para apreciar.


Lídia Ponti

pintura: "Sobremesa" Botero